2023: Gênero, cultura e deslocamentos: Diferentes fronteiras, interculturalidades e relações de gênero

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A Revista Eletrônica Casa de Makunaima apresenta o dossiê intitulado: GÊNERO, CULTURA E DESLOCAMENTOS: diferentes fronteiras, interculturalidades e relações de gênero que reúne alguns dos textos de comunicações apresentadas na III Jornada de Gênero, com título homônimo, realizada em setembro de 2022 no formato de Mesas Redonda, Minicursos, Comunicações de Estudos em Andamento ou Concluídos e Oficinas. O referido evento é organizado anualmente como parte das atividades do Grupo de Pesquisa Gênero, Cultura e Deslocamento cadastrado no CNPq e vinculado ao Curso de História e ao Programa de Mestrado Acadêmico em Educação da Universidade Estadual de Roraima.

Essa edição em forma de dossiê busca apresentar em textos o sentido do que foi, também, a proposta do evento, qual seja, debates, estudos, reflexões críticas e propositivas sobre as relações de gênero e os diferentes deslocamentos contemporâneos, enfrentamentos diversos, especialmente no contexto de política fascista e negacionista vivenciado nos últimos anos que interdita o processo sócio-histórico da construção de uma sociedade democrática e plural na qual haja respeito às diferenças.

Nesse sentido, a elaboração da nossa primeira edição, além de compartilhar diferentes olhares sobre as questões de gênero[1] e deslocamentos[2] é também uma forma de resistência a visões sexista, racista e heteronormativa.

 O Grupo de Estudos de Gênero, Cultura e Deslocamentos tem provocado reflexões em direção a educação intercultural e relações de gênero, perspectiva que tem exigido ampliar olhares de gênero e compreensão de alteridade, pois, considerando que “as relações de gênero são relações de poder” (CARVALHO, 2009; p.18) e a especificidade do Extremo norte da Amazônia, ser um espaço de fronteira visto com um laboratório de diversidade social e cultural, constituído de múltiplas temporalidades e experiências.

Lugar que tanto configura riquezas sociais e culturais quanto “complexas matrizes de gênero e etnia que dão o tom do jogo das hierarquias, dominação e resistências, muitas variadas.” que também contribui com a formação de “preconceitos, estereótipos sexistas e racistas presentes no cotidiano atual da região amazônica” (WOLFF,1999, 153). Tais práticas e representações excluem diferentes categorias da Amazônia dentre elas, as mulheres.   

 Em um diálogo que surge das terras amazônidas para o alcance possível que a revista digital possa alcançar queremos nesta edição fomentar o debate, mas também dizer de nós, o extremo norte do Brasil, diante o imenso silêncio que existe na cultura nacional sobre o que se produz nessas terras. Ou dizendo de outro modo, como podemos nos fazer conhecer por meio das comunicações, palestras e oficinas que a III Jornada de Gênero nos proporcionou.

A história da Amazônia é povoada por mitos e lendas, que por vezes serviram para encantar o ouvinte sobre a beleza de nosso território, mas, por outras tantas vezes serviu a um processo de dominação e negação da nossa pertença à nação brasileira em desenvolvimento. As consequências disso é tomar este lugar como sinônimo de vazios demográficos enquanto em terras amazônicas habitam tantos e distintos moradores. Serviu à negação das políticas públicas sociais posto que a diversidade era sinônimo de ineficácia para tais políticas. Enfim, a interpretação sobre o Norte criou uma outra dimensão de Brasil.

E, no contraponto dessa leitura sobre o Norte, surgem nossas ações e a reflexão destas, elencadas no propósito deste dossiê problematizando um contexto plural de diferentes sujeitos, lutas e resistências. No debate da conjuntura mundial que se apresenta de retrocessos dos direitos, mas também, de avanços de vários grupos culturais e sociais que reivindicam seus direitos de existir de forma digna, notadamente: LGBTQIA+, mulheres negras, indígenas gênero, pessoas deficientes enfim os textos têm em comum a abordagem plural e interseccional numa abordagem de gênero.  

Trata-se de reflexões que subsidiam a compreensão sobre a complexidade das sociedades contemporâneas, no sentido de problematizar as diferentes desigualdades de gênero que excluem, silenciam, negam oportunidades às múltiplas identidades de gênero e de sexualidade que constituem identidades plurais. Por fim, dizer que essa edição se compromete com os debates sobre os desafios e possibilidades de pesquisar e fazer educação intercultural. Desse modo, compreender o olhar sobre as relações de gênero em contextos educacionais é instigar diferentes olhares, em atividades acadêmicas e pedagógicas para as diversificadas Amazônias, múltiplas fronteiras; e deslocamentos; os sujeitos de direitos que se constituem em: indígenas, urbanos(as) rurais, ribeirinhos(as) e migrantes; mulheres em movimentos e de movimentos feministas.

Advogando uma abordagem teórica em que se busque discutir de que modo os processos migratórios forçados ou por vontade própria atingem as fronteiras geopolíticas, bem como as fronteiras discursivas das categorias de análise no pensamento social, justifica-se aqui a conjuntura mundial e do desenvolvimento global como um fenômeno que revela uma conjuntura sociopolítica propícia para se discutir gênero, cultura e deslocamentos.

Nesse sentido a globalização, enquanto um fenômeno sociopolítico aponta para a homogeneização do mercado, tanto pela oferta quanto pelo consumo, como consequência aumentou consideravelmente as desigualdades sociais. Mas, é também, esse mesmo fenômeno que revelou as inúmeras possibilidades de ser diferente, de ser distinto do que se propunha como normativo. Portanto, a diversidade que já constituía as sociedades se fez presente por meio das reivindicações nas lutas sociais e nas inúmeras experiências de parcerias que levam em conta a pluralidade humana, até mesmo nos interstícios das sociedades que impulsionam a globalização.

Esta edição está composta em duas partes. A primeira denominada GÊNERO, CULTURA E DESLOCAMENTOS e a segunda DIFERENTES FRONTEIRAS, INTERCULTURALIDADES NAS RELAÇÕES DE GÊNERO. Os textos são frutos das comunicações livres e palestras apresentadas, bem como produções de pesquisadores(as) interessados(as) nas temáticas. 

O texto “Adolescência, Saúde Mental e TransLGBTQIA+fobia no Ambiente Escolar” apresenta as reflexões iniciais da pesquisa em andamento dos pesquisadores Marina de Almeida Cavalcante e Alexandre Adalberto Pereira. Os autores destacam que dentro do grupo minoritário e excluído, a população trans sofre mais consequências devido aos preconceitos machistas e homofóbicos. Assim, apresentam dados estatísticos que devem nos levar à reflexão sobre a relação saúde mental e ambiente escolar.

Com “Uma Arqueogenealogia da história das mulheres na computação”, Thaís Gonçalves da Silva e Raimunda Delfino dos Santos Aguiar nos trazem à mente a frase que bem representa a luta das mulheres: “lugar de mulher é onde ela quiser”. As autoras descortinam a presença histórica da mulher na computação em um diálogo da Ciência da Computação com a Linguística. A leitura do texto nos leva a questionar como ocorre o processo de diminuição/apagamento das mulheres nos cursos de Tecnologia da Informação e também nos ajuda a romper os muitos preconceitos em relação ao trabalho de mulheres na área da computação.

 Wollacy Esquerdo Lima e Alexandre Adalberto Pereira apresentam “A interculturalidade na formação docente: Proposta afirmativa para a diversidade”. Trata-se de uma pesquisa em desenvolvimento na Universidade Federal do Amapá que busca verificar as percepções de acadêmicos de Pedagogia sobre a temática da diversidade sexual e do enfrentamento à LGBTQIA+fobia no ambiente escolar. Assim, os autores propõem a interculturalidade como forma de abrir espaços para um olhar sensível dos movimentos que lutam/resistem por igualdade e respeito.

O texto “(Des)construindo fronteiras na Educação: Refletindo a interseccionalidade de gênero e deficiente para a inclusão segundo a Antropologia” apresenta reflexões das autoras Carla Silva de Brito e Mariana Cunha Pereira. A partir do olhar da Antropologia e da Teoria Crip, as autoras questionam os padrões sociais e incluem a categoria “deficiência” no debate crítico sobre a exclusão. Debate tão necessário em meio às inúmeras fronteiras que continuamente são (re)construídas nas práticas culturais e educativas, principalmente no que concerne à padronização dos corpos.

Presenciamos os espaços das redes sociais como verdadeiras arenas em que humilhações e exclusões vêm sendo defendidas por grupos conservadores que almejam reaver o direito a uma linguagem racista. Interpelando nosso fazer educativo Taisa da Silva Rocha apresenta “O Discurso Racista nas Redes Sociais e o Apelo ao Retorno do Tratamento Depreciativo Disfarçado de Humor”. A autora tece uma trajetória histórico-linguística acerca do preconceito racial construído e reconstruído na sociedade brasileira para nos convocar para a luta contra práticas, discursos e postagens racistas.

Diante deste contexto, a educação, com vistas ao desenvolvimento humano e intelectual, não pode abster-se de desenvolver debates relacionados à valorização das diferenças sociais e culturais de forma afirmativa, de modo que é preciso reconhecer os diferentes sujeitos enquanto patrimônio social e cultural em direção à interculturalidade e às relações de gênero a fim de ampliar troca de sabres e contribuir com os avanços e manutenção de direitos já conquistados e reivindicar outros.

Portanto, pensar as questões de gênero, cultura e deslocamentos tem como desafios problematizar diferentes deslocamentos sociais e culturais que nos interpelam (HALL, 2005) compreender estes processos de forma crítica nos espaços de atuações, assim como ampliar olhares e horizontes para si enquanto sujeito político, dinâmico e expressão de pluralidade.

REFERÊNCIAS

CARVALHO, Maria Eulina Pessoa de; ANDRADE, Fernando Cezar Bezerra de; MENEZES, Cristiane Souza de.(Org.).  Equidade de gênero e diversidade sexual na escola: por uma prática pedagógica inclusiva. João Pessoa: Editora UFPB, 2009.

HALL, Stuart. A Identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2005.

SCOTT, Joan Wallach. Gênero: uma categoria de análise histórica. 3, Ed, Recife:SOSCORPO, 1996.

SAYAD, Abdelmalek. A imigração ou paradoxos da alteridade. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1998

 WOLFF, Cristina Scheibe. Mulheres da Floresta: uma história do Alto Juruá, Acre (1890 – 1945). São Paulo: Editora Hucitec, 1999.

 

[1] vista como “um elemento construtivo de relações sociais baseadas nas diferenças percebidas entre os sexos, uma forma primeira de ressignificar as relações de poder” (SCOTT, 1996).

[2]  “a migração é compreendida enquanto um fator social completo, sendo necessário analisá-la em seus vários aspectos (políticos, econômicos, sociais e culturais), considerando-a em sua dupla dimensão de fato coletivo e trajetória individual.( SAYAD, 1998)

Publicado: 19/09/2023